A Cardiologia não pode perder seu coração






Wilson de Oliveira Jr*






A utilização excessiva de procedimentos tecnológicos vem cada vez mais afastando o médico da cabeceira do doente, fazendo com que a relação médico-paciente – tão importante e valorizada no passado – seja substituída pela solicitação de exames complementares sofisticados, em detrimento da escuta apurada, da história clínica e do exame físico. Se, por um lado, o desenvolvimento tecnológico trouxe benefícios inquestionáveis ao diagnóstico e tratamento, por outro, o profissional da saúde foi ficando mais afastado do paciente como ser humano.


É inegável a importância da tecnologia para o avanço da Medicina, porém não se pode esquecer que o humanismo é algo primordial na prática médica. A perda progressiva dos valores humanísticos é um processo complexo e multifatorial. A tecnicociência e a prática médica humanizada devem caminhar simultaneamente, pois não são posturas excludentes.


O problema não está na tecnologia em si, e, sim, no seu uso indiscriminado. Portanto, não estamos preconizando a demonização da tecnologia, mas também não defendemos o seu endeuzamento, postura essa, que infelizmente, vem se tornando hegemônica nos dias atuais. A sua utilização, sem reflexão crítica, não traz benefícios e poderá trazer malefícios para o paciente e para o sistema da saúde como um todo.


Atualmente, ao mesmo tempo em que os avanços tecnológicos têm facilitado o diagnóstico e tratamento de várias enfermidades, cada vez mais pacientes se queixam da conduta fria e mecânica de alguns profissionais.


A melhor Medicina não é necessariamente a mais cara, é àquela que percebe o enfermo além da sua enfermidade. Como já dizia Miguel Unamuno, na sua sabedoria, o enfermo é um ser humano de carne e osso que sofre , pensa, ama e sonha. É preciso entendê-lo, não apenas em uma construção biológica, mas também ambiental, psicológica e social. O perfil biopsicossocial do paciente interfere diretamente no desenvolvimento da doença e no sucesso do tratamento proposto para ele.


A comunicação médico-paciente empática é a chave para o possível sucesso do tratamento. A discrição do médico e a confiança conquistada permitem que o paciente abra o seu coração e revele queixas e situações que podem tornar-se fator fundamental para o diagnóstico e tratamento. Essa empatia poderá resultar em diagnósticos mais precisos, menor solicitação de exames, redução dos custos operacionais e maior adesão ao tratamento.


Uma consulta não significa apenas o desejo de acabar com a doença orgânica. Ela também tem como objetivo eliminar o temor escondido e as angústias não confessadas. As máquinas não poderão jamais avaliar nem compreender o sofrimento humano, nem tão pouco poderão sanar medos e incertezas. A prática de uma boa Medicina compreende três princípios essenciais; disponibilidade, tecnologia e capacidade de construir uma boa relação médico-paciente. É de se esperar que ao assumir essa conduta, tenha-se como resultante diminuição dos erros médicos. Lembrar sempre que “ ser médico é gente cuidando de gente”


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*Professor de Cardiologia da UPE

*Coordenador do Ambulatório de doença de Chagas e Insuficiência Cardíaca-PROCAPE-UPE

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