A aventura da narrativa: para começar é preciso começar

caRRERO

Raimundo Carrero
Escritor e jornalista

 

E o começo?…Como é que começa um romance? Pedem muito os alunos da Oficina de Criação Literária. Não existe uma técnica definitiva e exclusiva. Mas há, pelo menos, uma indicação: escolha um momento emblemático da narrativa, uma cena, uma ação, uma metáfora mesmo sem tempo e sem espaço, de forma que o leitor possa encontrar ali a atmosfera do todo. E prepare-o para o que vai encontrar nas próximas páginas. Faça com que ele respire – expressão de Umberto Eco – o clima do livro. Numa palavra: seduza-o.

Madame Bovary começa com a cena – ou as cenas – de um menino, ainda inominado, que é jogado no livro por um narrador plural em companhia do diretor da escola e de um bedel, que carrega uma cadeira. Deve permanecer na turma até que mostre qualidades para subir de classe. Seguem-se cenas em que o menino se arrasta na sala, grita o seu nome em meio a algazarra, é insultado e escarnecido, vira alvo de bolinhas de papel, e é condenado a escrever várias vezes a expressão ridiculus sum. Este menino é Charles Bovary e a cena é emblemática porque define o seu caráter ingênuo e confuso, incapaz de não distinguir o feio do belo, o bem do mal. A infância dele não entra em questão, mas o caráter, sim. Até o meio do capítulo o leitor vai entender que ali está o jovem médico com vocação para o adultério até por causa de sua ingenuidade e, na interpretação do leitor, através do antigo professor, porque é ridículo.

Por ser ingênuo e ridículo é apresentado numa cena cômica, risível, emblemática. No segundo capítulo, dedicado à apresentação da personagem feminina, mais tarde Emma Bovary, ela é entregue ao leitor numa cena indefinida, sutil, leve, envolvente. Caracteres diferentes, opostos. Escreve o narrador: “Uma moça, vestindo um merinó azul guarnecido de folhos, apareceu à porta da casa, para receber Bovary, a quem fez entrar na cozinha, onde crepitava um bom lume.“Uma mulher quase fantasmagórica, saindo da sombra para a luz. Um ser em construção, pedindo a sedução do olhar. Caracteres em oposição: o primeiro, atrapalhado, confuso, ridículo; a segunda, sedutora, envolvente romântica. Cenas emblemáticas que definem os personagens.

Nos capítulos seguintes, Flaubert vai construindo estes personagens até porque o romance não é uma história mas o enfrentamento da condição humana. Não se escreve para distrair mas para embelezar e, através da beleza, alertar para o caos do ser. Os capítulos vão revelando a estratégia do narrador plural, com a montagem, depois apropriada pelos roteiristas, das sequências: Charles e Emma, com ênfase para Charles; Emma e Charles, com ênfase para Emma, e daí por diante, sempre com cenas emblemáticas, até o final da primeira parte. Em outros artigos continuamos com este assunto tratando da montagem de outros romances clássicos.

Frase de Gustave Flaubert 3

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