OPINIÃO
Raimundo Carrero:
Diálogo tem função narrativa em Sem Lei nem Rei, de Maximiano Campos“Maximiano Campos usa com incrível habilidade o diálogo artisticamente trabalhado com função narrativa”

 

Por: Diario de Pernambuco

Publicado em: 06/06/2016 06:56 Atualizado em:

Por Raimundo Carrero
Escritor e jornalista
Assim como o olhar do personagem cria o cenário em Sem Lei nem Rei, do pernambucano Maximiano Campos, o diálogo exerce a função do narrador, muitas vezes nem se percebendo a passagem entre um e outro, o que deixa o leitor sempre à vontade. Basta observar este exemplo, já no terceiro capítulo do livro: “- Espera, Cobra, vamos esperar o sol descambar, entonces a gente entra com a força de tiro cerrado. Avisa aos cabras que medo não se vê no escuro, mas que ouço e conto cada tiro dado. Vamos entrar com a força da surpresa e a ira dos desprotegidos. Raiva é coisa que passa, vira remorso de mulher. Forte é a ira que leva o homem a nada temer. Ira de ficar na desventura do ser desfeiteado, enquanto o peito não é lavado pelo sangue do desafeto.”
Ocorre agora a passagem de uma voz a outra, no mesmo tom e no mesmo ritmo, de forma transformar o diálogo em narração, embora o que se segue seja a narração mesma, ou seja, diálogo com função narrativa: “Com a chegada da escuridão, Antônio deu ordem para os cabras começarem a atirar. A noite virou um inferno.
De vez em quando Lacra parava, alisava a coronha do rifle como se o tivesse acariciando. Zé de Nena, deitado de barriga para cima, parecia estar reservando forças para a luta. Lamparina e Paixão conservavam-se juntos; eram as mais novas aquisições do bando; Cobra-Choca mudava de posição, indiferente às balas. No dia anterior havia dito ao capitão que tinha certeza de ter o corpo fechado, nunca levara tiro de “macaco”. Parecia não dar importância ao chumbo que passava quebrando os galhos do met., chocando-se com as pedras.”
Adiante Antônio Baraúna diz dentro do embate:
– “Aguenta o rojão, filhos de uma égua, senão nos estrepamos.
E em seguida:
– Vamos debandar em ordem, já perdi dois homens e estamos em desvantagem grossa. Depois e volto pra acertar as contas com esse velho da puta”.
Assim percebemos que Maximiano Campos usa com incrível habilidade o diálogo artisticamente trabalhado com função narrativa.

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