Raimundo Carrero: Luzilá Gonçalves assegura presença feminina no século de ouro da literatura pernambucana“A literatura pernambucana, já marcada por grandes e definitivos nomes nesse século de ouro – o século 20, revela na década de 80 a ficcionista Luzilá Gonçalves Ferreira”

 

Por: Diario de Pernambuco

Publicado em: 27/06/2016 07:22 Atualizado em:

Por Raimundo Carrero
Escritor e jornalista

A literatura pernambucana, já marcada por grandes e definitivos nomes nesse século de ouro – o século 20 – a exemplo de Gilberto Freyre, Lucilo Varejão, Osman Lins, Ariano Suassuna, Gilvan Lemos, Maximiano Campos e Sérgio Moacir de Albuquerque, revela  na década de 80 a ficcionista Luzilá Gonçalves Ferreira, agraciada com o Prêmio Nestlé de Literatura. A novela Muito Além do Corpo, com um texto inquietante, delicado, sedutor e técnico, surpreende o leitor brasileiro.

A novela se insere naquela linhagem de textos curtos e apaixonantes destacados em Ana-não, de Augustin Gomes D’arco, de Pedro Páramo, de Juan Rulfo, e Sylvia, de Gerard de Nerval, técnicos, sem dúvida alguma, mas absolutamente sedutores. Os nomes dos personagens não são importantes nem decisivos, bastando o Eu, o Tu e o Ele para definir a condição humana e o conflito entre eles. Não exatamente metafóricos, mas sem dúvida alguma simbólicos. Redutores, pode-se dizer, mas plenos de inquietação e de humanismo.

Na primeira página avulta o corpo masculino marcado pelas afetuosas imperfeições aos olhos da personagem que, mais do que revelar um perfil fíc-psicológico, desenha um cenário humano  de que se ocupará a narradora nos movimentos internos do texto.

Assim:

“Uma réstia de luz brincou sobre teu corpo ao lado, a manhã se insinuando pelo teto de treliças. Um belo corpo de homem, pensei. E me corrigi: Nem tão belo assim. Era verdade. Ombros se equivaliam. As pernas curtas, um pouco de ventre que me comoveu: o tempo começava a trabalhar naquele corpo que eu amava, no abandono do sono. Eu sabia de cor aquele corpo, cada sinal de pele, que possuías esplêndida, de uma tonalidade que me eram perene espanto e maravilha. Conhecia a forma de cada curva. E os gestos, e o jeito das mãos e o andar meio inclinado, lento, e o vinco na testa. A longo dos anos, eu  navegara naquele corpo, aprendera a conhecê-lo a cada toque, onde a maciez, onde a pele se fazia mais rija sob a pressão dos ossos – ombros, quadris, joelhos, onde a angulosidade. Nas noites de frio ou tristeza, eu soubera o lugar do meu próprio corpo ao lado dele; então me fazia redonda e pequena, e o frio e a tristeza se dissolviam-no espaço que o corpo amado me inventara, as pernas se dobrando em concha, os braços se abrindo para acolher, o ombro se fazendo suave. E lhe voltava as costas, a respiração dele me aquecia a nuca e o coração, ah os mistérios do corpo, mistério do amor”.
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