Vamos lá? Mais uma grande aula do nosso Raimundo Carrero.
Carrero
Falso monólogo interior: avanço técnico e sedução do leitor

Raimundo Carrero *
opiniao.pe@dabr.com.br

Publicação: 21/03/2016 03:00

Embora um livro extremamente sofisticado, Vidas Secas não pede leitor erudito ou culto porque exibe simplicidade, muita simplicidade. Esta é, sem dúvida, a  maior qualidade do romance. É simples mas não é simplório, é belo mas não é vulgar. Chama o leitor para sua intimidade e com ele trava um pacto de sedução; de absoluta sedução.Basta querer amar e aí está a conquita. Com a vantagem de que nunca mais será esquecido.

Para alcançar este efeito de simplicidade, Graciliano Ramos investe, entre outras coisas, no falso monólogo interior , que consiste na narrativa em terceira pessoa  com técnica de primeira, com muito rigor, sem com isso sacrificar o leitor em qualquer circunstância.     Depois da abertura com mudança- em que há uma ciranda de vozes: começando com o narrador plural, seguido do menino mais velho – lembrem-se que ele está desmaiando e vê os que juazeiros “aproximaram-se, recuaram, sumiram-se” -, passando a voz para Fabiano – “pelo espírito atribulado do sertanejo passou a idéia de abandonar o filho naquele descampado”, agora mostrando a voz de Baleia, “ausente do companheiro, a cachorra Baleia tomou a frente do grupo”. Tudo sob o comando do narrador oculto, o maestro que parece reger uma orquestra com muitas vozes e muitos instrumentos. A partir do segundo capítulo, cada personagem ou cada voz tem o seu próprio solo, manifestando-se na narrativa que não perde a unidade ou a harmonia. Leitores me perguntam: Mas como pratico as técnicas nos meus romances? Devo explicações, vamos ver….

VIDAS SECAS

Quando comecei a escrever meu romance recente O senhor agora vai mudar de corpo – que na época se chamava Às vésperas do sol, mudei o título por sugestão de Schneider Carpeggiani – decidi que não faria uma narrativa sentimental, com lances de desespero e dor, lutando pela recuperação, numa espécie de herói literário, a arrancar lágrimas e aplausos dos leitores, feito se faz no romance ou no cinema norte-americanos. Nada disso. Queria uma obra de qualidade literária, de beleza lingüística e formal.

Lembrei-me então do falso monólogo interior, primeiro para evitar a primeira pessoa – que me causaria vexame e exposição – e depois para conseguir um efeito verdadeiramente literário, e até porque o monólogo tradicional tem sido usado demasiadamente.É lugar-comum literário. Usei no princípio a frase que me dissera a cuidadora numa tentativa ingênua e cruel de me preparar para o futuro – “O senhor agora vai mudar de corpo”. O texto investiria na pergunta inquietante: “Com que corpo vou viver agora?” – Gordo, magro, velho sofrido, anão? Ou, “Quem muda de corpo é mulher grávida?” Mas se eu dissesse isso mesmo na falsa terceira pessoa estaria copiando outros escritores. Então optei pelo olhar do personagem – com a vantagem de movimentar a cena. Por isso, o personagem vê,mais do que pensa,  “o grupo se aproximando, à frente o velho pequeno e trêmulo… em seguida o Homem Gordo subindo  a ladeira, ladeado do Anão…e logo atrás um Homem Alto… E, ainda mais atrás, a Mulher Grávida…”. Portanto, movimento e movimento, cena sobre cena sem discurso interno ou externo, comum no Monólogo… Técnica sofisticada que torna simples o romance…

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.

 

Deixe uma resposta

BLOGS PARCEIROS
Blog de 1 a 10
Recanto das Letras
Blog Olhares Blog Escritaci