Lembro-me quanto os riscos fizeram e ainda fazem parte da minha vida. Desde criança os medos me envolvem e atraem. Creio que todos somos um pouco assim. Temos vontade do desconhecido, de ir além, de sentir adrenalina, de fugir do cotidiano, da rotina.

Jovens, principalmente os jovens, querendo descobrir o mundo, quebrar barreiras, enfrentar desafios, convivendo assim, muitas vezes, com o perigo, mesmo que previsto e avisado.

E os riscos sem dúvida trazem novidade, coração acelerado, alegre como o de uma criança em suas trelas. E permanecemos tão crianças, mesmo adultos. Crianças que tiveram que crescer, amadurecer, sem que a vida pedisse licença , trazendo um aviso que pareceu ser de última hora: “Olha, tudo mudou, de agora em diante és adulto, responsável e agora a vida passou a ser séria”.

Fico pensando, quantas vezes andei em cima do muro alto da minha casa, rodeando a casa inteira e ainda equilibrando-me em uma parte onde só havia grade. Os gritos da minha mãe aceleravam o coração, mas não me impediam da trela.

Na adolescência, conversava com meus amigos em alto mar, em cima de uma prancha de surf, tomando sol e ouvindo o barulho da água batendo embaixo. Eu morava em Piedade e, como em todo mar, tinha tubarões sim, mas deveriam estar satisfeitos.

Hoje, após as modificações feitas em nome do progresso, especificamente no Porto de Suape, seria um suicídio se eu fizesse isso. “Inaugurado na década de 80, mas em pleno funcionamento a partir de 90, teve, a partir de então, início os ataques de tubarões nas praias do Recife. “Parece haver uma correlação significativa entre o número de navios do porto e a ocorrência de ataques”. Os tubarões reconhecidamente costumam seguir grandes embarcações”, afirma o biólogo Fábio Hazin, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Mas também existem outros fatores que explicam o problema, como a elevação do número de surfistas e banhistas no mar, a crescente pesca de arrasto de camarão – com os barcos despejando restos da pescaria no mar, o que atrai os tubarões -, a topografia do relevo submarino da região e até mesmo algumas condições climáticas, como a influência dos ventos nas correntes marítimas. De acordo com Fábio, que tem acompanhado de perto a situação, as principais espécies responsáveis pelos ataques são o tubarão-tigre (Galeocerdo cuvier) e o cabeça-chata (Carcharhinus leucas). As duas espécies são conhecidas pela ferocidade de seus ataques e pelo grande apetite. “Uma prova desse poder predatório é que já foram encontrados no estômago de tubarões capturados os mais variados objetos, como placas de carro, garrafas, sacos plásticos e até mesmo latas de cerveja.”

(http://mundoestranho.abril.com.br/materia/por-que-ocorrem-tantos-ataques-de-tubarao-em-recife)

Apenas umas aspas para falar aqui sobre a Bruna, última vítima de tubarão aqui na nossa bela Praia de Boa Viagem. Uma jovem que queria curtir os prazeres da idade, a sua viagem, os amigos, os novos lugares, ousando assim, enfrentar o desconhecido. Quem de nós não faz isso? Quem de nós não esquece por várias vezes os perigos pelo prazer da adrenalina, por uma brincadeira, por divertimento? Quantos riscos corremos em busca de um voo de asa delta, de uma escalada numa enorme montanha pelo prazer da visão, da conquista, do poder admirar o mundo por um ângulo tão mais perto do céu e a paisagem?

Além disso, quantos potenciais suicidas dirigem após beberem, todos os dias em todos os lugares, pondo em risco a sua vida e a dos outros, tornando-se assassinos, tubarões do asfalto?

A vida por si só já é um risco. Já desci, na mesma idade da Bruna, na garupa de uma moto uma imensa ladeira de Salvador em grande velocidade. Risco sim, uma queda seria fatal e sabia disso, mas uma ousadia da adolescência, pelo prazer da velocidade, do vento no rosto, da liberdade.

Riscos, riscos e riscos. Ademais, atravessar uma rua é um risco, dirigir é um risco diário, os esportes radicais são maravilhosos, mas são perigosos e sujeitos a desastres, assim como os parques de diversões, nossas péssimas estradas, a violência na cidade, entre tantos.

Cautelas na medida certa e em todos os lugares. Mas cautela, sempre. Procurar fazer tudo com a máxima precaução, porém, cautela demais também tolhe, acabrunha, entristece. A medida exata do equilíbrio é difícil, mas sabemos o que pode ser evitado, os cuidados e tantas vezes com tantos cuidados as coisas acontecem, por um descuido (muitas vezes até dos outros e não nosso) os desastres acontecem e, assim como o da Bruna, que só queria ir um pouco mais além (e não foi por falta de aviso), foi pega pela fatalidade (prevista) e infelizmente pagando com a própria vida. Olha que até com toda cautela muitas vezes não evitamos acidentes.

Somos assim, não só ela, somos avisados, somos alertados, prevenidos, mas temos, cá dentro de nós, essa vontade de pagar pra ver de vez em quando e muitas vezes a adrenalina pode nos custar caro, muito caro. A vida precisa de uma pitadinha de sal sim, mas sal demais coloca todo o tempero a perder. O salva-vidas correu para salvá-la do afogamento e o sujeito chegou primeiro, estava ali, na casa dele, com fome, naquela hora, no exato momento em que seria salva. Quem há de entender as fatalidades da vida?Fatalidade? Destino? Azar? Sei lá, mas antes de arriscar-se conscientemente é bom ser precavido, rezar uma boa reza e carregar seu patuá!

(Taciana Valença)

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