MARIA
Sem dúvida ela era esquisita. Talvez a garota mais esquisita do colégio. Não, feia ela não era. Longe disso. Muito bonita na verdade. Mas havia algo estranho. Estava sempre sozinha, lendo um livro ou escrevendo coisas que, confesso, tinha vontade de saber o conteúdo. Parecia não interagir com as adolescentes da sua idade. Às vezes parecia demonstrar uma superioridade em relação a tudo e a todos. Algumas poucas vezes a via com outras garotas, mas sempre meio fora do contexto ou mesmo com cara de quem estava a fim mesmo era de se livrar de todas elas e voltar para o seu canto. Meus amigos estavam sempre querendo chamar sua atenção, mas sempre sem sucesso. Pudera, ela não era do tipo que se impressionava com coisa nenhuma. Nem mesmo se eles estivessem sem roupa. Percebia motivo de inveja entre as colegas e de interesse entre os rapazes. Bem, se havia uma incógnita entre os corredores o nome dela era Maria.
O ano caminhava para o final e, apesar de toda sua discrição, ela era quase sempre o motivo das rodas de conversas.
Ao final do segundo semestre, sob os olhares curiosos, Maria chegou acompanhada de um senhor, talvez muito velho para ser pai. Quem sabe um avô, sei lá. Então o caso passou a ser descobrir quem era o homem e saber o porquê da visita na escola. O que teria acontecido? Ela, com seu ar sempre imparcial e sério, não deixava sequer transparecer nada fora do normal. Foi quando resolvemos apostar quem de nós poderia tirar o segredo daquela garota. Escolhemos o Paulo para ser o primeiro a tentar. Como era o mais falante e atrevido, estávamos confiantes. O prêmio era uma bobagem, afinal, era só um estímulo para o que realmente nos confortaria: descobrir o segredo de Maria.
Ela caminhava para o banco quando vimos Paulo esbarrar nela, derrubando seus livros e se desculpando. Foi assim que conseguiu sentar ao lado dela. A conversa pareceu seguir um ritmo bom, para nossa surpresa. Maria até esboçou um sorriso enquanto nosso amigo despejava sobre ela todo o charme que ele achava possuir. Ficaram ali até que ela disse que estava na hora de ir, que tinha hora para chegar em casa. Bem, Paulo ficou então todo cheio de si. Jamais imaginou que ela conversaria com ele. Estava se achando “o cara”.
Papo vai, papo vem, descobrimos que a conversa não passou de uma avaliação que ela lhe fizera sobre o último livro indicado pelo colégio, sobre o qual ele também falou um pouco. Enfim, mesmo assim ele achou que tinha vencido. Realmente, vencera uma etapa. Maria era de uma profundidade inalcançável para os seres ditos normais.
Um dia cheguei um pouco mais tarde e acabei perdendo a primeira aula. Fiquei por ali, de bobeira. Tomei água e fiquei esperando a aula terminar. Foi então que percebi Maria, sentada no banco de sempre, cabeça baixa, os longos cabelos negros cobrindo seu rosto. Parecia soluçar baixinho, temendo ser vista chorando.
Fiquei sem saber se deveria ir falar com ela ou não. Mas, de repente me enchi de coragem e quando percebi já esta ao seu lado com um copo d´água para lhe oferecer (gentileza esta nunca vista em 16 anos de vida). Maria estava virando uma questão pessoal.

A primeira coisa que me veio à cabeça foi perguntar se estava tudo bem. Ela disse que sim, mas insisti em saber por que chorava. Foi então que ela me olhou profundamente nos olhos e demorou tanto me olhando que fiquei sem graça.Deu até frio na barriga. Sabe aquele frio de nervoso? Parecia que estava entrando dentro de mim e ao mesmo tempo pensando se deveria ou não me dizer alguma coisa sobre sua vida. Nunca me senti assim, tão invadido por alguém. Depois, para minha surpresa, deu um largo sorriso e prendeu os longos cabelos com a caneta. Em seguida ficou tremendamente séria. Fiquei então duvidando da sua sanidade mental. Faria isso para chamar a atenção? Mas então resolvi encarar também. Fiquei sério, fixo em seus olhos. Ela não se conteve: começou a chorar, agora muito mais que antes. Meu Deus! Comecei a ficar nervoso e ao mesmo tempo tentei acalmá-la, dizendo que independentemente do que fosse, ficaria tudo bem, que tudo na vida passa, e essas coisas que a gente diz quando não sabe o que dizer. Quando percebi estava passando as mãos nos seus cabelos com um carinho que me surpreendeu. Sem graça, me afastei mais um pouco para deixá-la à vontade.
Foi então que ela me disse: – eu vou morrer. Fiquei imobilizado. Como ela iria morrer? Sua aparência era de muita saúde. Ela continuou, dizendo que tinha uma grave doença e que deram mais ou menos 20 anos de vida. Fiquei nervoso, não sabia o que dizer. Conversamos mais e ela contou que viajaria no final do ano para tentar uma cirurgia que talvez pudesse curá-la. Dei força, estava realmente emocionado, com pena, com muita pena dessa linda garota que tanto sonhava com mais anos de vida. Confessou que queria ser médica, que daria tudo para poder viver mais anos da sua vida e realizar esse sonho. Eu fiquei comovido. Ela tinha um sonho e não mais teria uma vida. Eu tinha uma vida e saúde e ainda não tinha nenhum sonho. Chegou a hora da aula. Entramos nas nossas salas. Procurei na hora do intervalo para saber se estava melhor. Não a encontrei. Na saída também não. Preferi não contar aos amigos. Era um segredo dela. Um doloroso segredo. Não tinha esse direito. Mal sabia eu que Maria jamais voltaria para o colégio. Aquilo foi uma despedida e eu fui o escolhido por ela para desabafar toda sua dor.
Durante os dias que se seguiram as conversas foram sobre ela. Todos estavam chocados. Naquele mesmo dia ela chegou em casa muito feliz, até seu avô, aquele mesmo que teria ido com ela dias antes, disse ter ficado impressionado com sua felicidade. Ela cantou, comeu, arrumou seu quarto, limpou seus livros, um a um e adormeceu com um deles em suas mãos. Maria nunca mais acordou. Disse o avô que dentro do livro havia um papel onde estava escrito: ele falou comigo! Mas ninguém soube sobre quem ela estaria falando e eu não tinha o direito de falar mais nada sobre ela.
O tempo passou e tomei para mim o sonho de Maria. Médico, agora quero curar, na medida do possível, todas as pessoas que me procurassem, como nunca pude fazer com ela.
Maria, eu nunca mais a esqueci.

Igor Lemos

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