Olhei pela fresta da janela e por um instante parei para observar a garotinha do apartamento do prédio vizinho. Não, não parecia ser a mesma. Meu Deus, claro que não era! A imagem na minha cabeça continuava a de sempre, de quando cheguei no prédio. Mas Ela crescera, casara e nem me dei conta do tempo em que isso aconteceu. Aquela, que vi um dia saindo com a avó, já era sua filha. Onde eu estava que não a vi crescer? Enquanto ela crescia eu provavelmente estava amamentando meus filhos, escolhendo as primeiras escolas, preocupada com seus limites, suas possibilidades, a casa, que já ficara um pouco menor pelo acúmulo de variadas ideias entrecruzadas para um pobre vão. Um empurra-empurra de novas possibilidades e questionamentos… A árvore ao lado também engolira o prédio enquanto eu pensava no que ainda poderia ser depois de tudo que ainda tentava ser e de todas as novidades e novos questionamentos sobre a vida e sobre mim, que nem mais era eu. Nem mesmo lembro o tempo em que subiram tantos novos espigões ao meu redor. Juro por Deus que quando dormi não havia nenhum! Talvez tenha dormido demais ou permanecido tão acordada em mim que não percebi que tudo girava tão rápido! E eu ainda achando ser a mesma. Como assim???? Se isso tudo mudou o que dizer de mim, que mal me lembro quando realmente dormi? E as luzes continuam acendendo e apagando todos os dias, mais e mais rápido, até que piscam mínimas avisando a chegada do Natal e mais um ano se passou????? Ufa!O que escrever agora na nova agenda? Tudo de novo? Mudar alguns itens, mudar de rumo, de meta, de casa, de vida???? Por onde mesmo? Amanhã os bichos estarão no zoológico, é assim, eles não tem opção, mas e eu???? Após o show de Roberto Carlos e a chata contagem regressiva irei novamente brincar de acender e apagar interruptores? Novo ano e percebo só agora que meu cachorro anda cansado. Já não corre tanto e muitas vezes só levanta os olhos, talvez um pouco as orelhas no lugar de correr e latir feito maluquinho quando escuta algo que quer saber do que se trata. O menininho que corria atrás de mim, imitando minha ginástica tornou-se pai! A parte mais difícil de admitir talvez seja que meu tempo está ficando pouco para minha lista que teima em crescer, para os dias que implicam em correr e às vezes sinto andar em círculos feito cão querendo pegar o rabo. Ah, se ao menos pudesse me jogar no rabo de um cometa e lá de cima fazer tudo girar ao contrário… Talvez eu tivesse mais tempo de observar a garotinha crescer, de vê-la passar seu primeiro batom e beijar seu primeiro namorado. Mas não tive muito tempo de olhar para o céu e assim, se o cometa passou já se foi. Talvez no próximo, quem sabe? Ou estarei ocupada demais???

(Taciana Valença)

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