CROCHÊ

 

Ah, como era bom chegar ali! Corria, dava um beijo naquelas bochechas molinhas, mas cheirosas, e corria para o banho. Quando saía o almoço já estava na mesa. Sorte a minha que estava fazendo estágio quase em frente à casa dela. Comíamos, conversávamos e por fim tomávamos o cafezinho. Ainda dava tempo de brincar com a cachorrinha. Sim, aquela que almoçava, comia sobremesa e tomava café também! Uma figura. O cheirinho do Pão de Ló invadia a sala e a barriga avisava que ainda tinha um espaçozinho para ele.

Eu tentava tirar um cochilo, pois à noite ainda enfrentaria a faculdade depois do estágio. Mas não conseguia. Deitava na cama dela e ficava olhando aquelas hábeis mãos fazerem crochê. Era gostoso tê-la ali ao meu lado. Na frente estava a grande janela e a árvore, imensa, que ainda sobrevivia em Boa Viagem. Eram momentos de conversas. Momentos únicos que jamais posso esquecer. Ficava imaginando que eu nunca teria paciência para fazer crochê. Sou muito apressadinha. Ela bem que tentou me ensinar, mas, sinceramente, não me esforcei para aprender. Acho que não nasci para fazer crochê e imagino que isso seja um defeito: a pressa. Às vezes ficava imaginando o que ela pensava enquanto dava àquelas voltinhas nos dedos, ponto após ponto, sentada na cadeira de balanço, esperando que os netos, a filha ou o irmão chegasse para uma prosa. Freguesa há anos do Mercado de Boa Viagem, falava com todo mundo (nisso tenho a quem puxar) e gostava de sempre ir buscar alguma coisinha que estava faltando. Talvez uma falta proposital para a saidinha. Foi assim, no compasso dos pontos que suas mãos começaram a sentir a idade. As pernas já doíam e suas visitas aos netos diminuíram, o que lhe causava certa angústia, pois sempre fora uma avó presente aos netos e primeiros bisnetos, que acompanhava e tomava conta com enorme prazer. Até que aos poucos foi deixando de sair, de ver o mundo, cada dia saía menos e isso lhe causava um pouco de tristeza, pois sempre fizera tudo sozinha, pegava ônibus, resolvia suas coisinhas…

Hoje me deu um aperto, uma saudade daqueles dias, do cheirinho dela, do café, da árvore, dos biquines de crochê que ela fazia para nós, das blusas que quando terminava nos entregava dentro de um saquinho e duravam anos, toda a adolescência.Tinha uma muito bonita, cacharrel, feita com linha dourada, num capricho que só poderia sair daquelas mãos.

Sinto sua falta, quando a vejo ali, quietinha, sem mais conversas, sem seus livros (adorava Agatha Christie), sem seu mundinho que deixou ali junto com todos os seus caprichos e propósitos de vida. Daria tudo por mais uma tarde, um dedinho de prosa, um pedacinho de Pão de Ló e o café. Daria tudo por um pouco mais de minha vó. Mas ela já nem me reconhece, nem me ouve mais.

 

(Taciana Valença)

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