TENTATIVA DE RESGATE

Já me disseram uma vez que gosto de viver no passado. Não é verdade. Gosto do hoje sim, do agora, das coisas trazidas pela tecnologia, das facilidades de comunicação, enfim, nunca me recusei a evoluir e viver o que o presente me traz de bom. Mas, cá para nós, não dá a sensação de que no “passado” algumas coisas eram bem melhores? Hoje, quando vejo as crianças dias inteiros dentro de um apartamento jogando ou batendo papo pelo face, juro que me dá um aperto no coração.

É a evolução das coisas, sim, é. Mas eu me pergunto: até que ponto essa evolução é benéfica para a sociedade, para as relações humanas? Vejo meu filho jogando e pergunto: – não quer marcar com seus amigos para sair, brincar, jogar bola? E ele responde: – meus amigos estão aqui, mãe. Sim, ele está com o fone de ouvido e os amigos estão todos “dentro” do jogo.

Uau! Eu queria achar isso “fantástico”, mas eu não consigo. Antes que me digam, “você precisa de uma psicóloga para adaptar-se a esse mundo atual”, eu respondo: já estou na psicóloga. Mas sabe de uma coisa? Não me convenço que isso tudo seja melhor do que o que vivemos na infância.

Um dia desses, conversando na Cultura Nordestina, revivemos algumas coisas que fazíamos que eram “impagáveis” e não custavam absolutamente NADA. Incrível né? Era simples assim: pé descalço, rua de barro, joga de queimado na rua, vôlei com a turma (um verdadeiro “mói” de crianças), bicicleta, 31 alerta! Brincar de pega, de passar anel, de elástico (quem é da minha geração lembra bem disso nos corredores da escola, quando era permitido), vai e vem, bate-bate, estátua, cozinhado (que nunca ficava pronto), pedrinhas, jogo de botão, meu Deus, era uma infinidade de coisas. Os sorrisos eram abertos, as gargalhadas constantes e a criatividade, ah… isso nem se fala né? Lembro-me daquele Forte Apache que meus irmãos tinham, nossa! Era índio e soldado pra tudo que é lado da casa! Mas eles inventavam personagens e suas histórias. Isso tudo fora o bônus de não ter ninguém gordo, pelo menos na minha turma da rua. Claro, vivíamos gastando energia!

Não imaginem que estou escrevendo isso na esperança de que tudo volte a ser o que era. Claro que não, as crianças de hoje já nascem sabendo usar tudo que aparece na sua frente. O que eu quero é que, de alguma forma, algumas dessas coisas sejam resgatadas. Seja através dos pais, da escola, do que for. É, pode parecer difícil, mas enquanto o comércio vencer nossos argumentos e a maneira de educar nossos filhos ficaremos assim, frustrados, sonhando com os filhos fazendo o que fazíamos. E tem pais que alimentam essa angústia atual de ter o último jogo, o último Iphone, o último qualquer coisa que saia. E as crianças e adolescentes ficam assim, cada dia mais presas, mais apáticas, mais sem saúde, mais sem criatividade, e menos sociáveis.

Apelo aos pais que estimulem seus filhos a saírem de casa, fazer uma trilha ao ar livre, tomar um banho de rio, jogar bola na praia, ensinar algumas dessas brincadeiras junto com a turma dele, para que não se sintam sozinhos na descoberta. Enfim, tentar trazer um pouco de brilho nos olhos dessas crianças, amarradas e dependentes de uma tecnologia, nesse sentido, maléfica.

Podem falar de mim, mas antes, tentem entender o que quero dizer.

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