“Uma “coisa” me pegou. Uma “coisa” terrível, sem sentido! Inesperadamente, me pegou. Veio do nada e, como um terremoto maligno fez abrir o “chão” que estava sob meus pés… Pior: o “céu” que estava sob meus pés… Pois é! Justamente quando tudo estava tão bem, tão calmo, tão relaxado”.


“Aconteceu assim, bruscamente, quando fazia compras no shopping. Outra vez foi quando escutava música no carro (para distrair do engarrafamento de um trânsito para lá de caótico). E, por último, sem mais explicação ainda: no carnaval! No car-na-val! Em pleno “Galo” , no “Pisando na Jaca”, aqui perto, PERTO DE CASA, no Poço. É o “fundo do poço”. É um “poço sem fundo”.


Tais relatos são frequentes na clínica contemporânea. É o PÂNICO, ou tal como denomina a Psiquiatria dos dias de hoje: TRANSTORNO DE PÂNICO. São ataques recorrentes e imprevisíveis. Ataques de ansiedade aguda, absurdamente imprevisíveis: ocorrência brutal de palpitações e dores torácicas, sensações de asfixia e tonturas. Sensação de acometimento, de estranheza. Uma “inquietante estranheza”…


A temática de quem sofre é catastrófica: surge a certeza plena da morte. Morte iminente e contínua: é a sensação de morrer, morrer e continuar morrendo… É o estar cara-a-cara com o terror da morte. A morte é para já. Inapelavelmente. A vida está por um triz…

É o medo de enlouquecer, de não controlar os impulsos e cometer atos absurdos. É a sensação de que a loucura está se aproximando, se aproximando … Agitação sentida interiormente ou claramente expressada. A inquietação se estabelece: falta o ar, o coração parece que vai pular pela boca, a cabeça ameaça explodir…


Nada, ninguém pode ajudar. Não há saída, não há amparo. Não há via de fuga. Os segundos parecem a própria eternidade: “Quanto tempo está durando? Cinco, trinta minutos? Quinze, vinte?” O tempo tem outra dimensão. O espaço tem outra dimensão. É um estranhamento: atônita, a pessoa estranha a si mesma e, às vezes, mal se reconhece. O terror se instala, o medo exorbita e o sofrimento é (quase) incomunicável, indizível.


Mas, “aquilo que não se deseja ao pior inimigo” vai passando, passando. Fia a “ressaca”, ou seja, a sensação de estar “moído” . Fica um enorme vazio, tal qual um “oceano sem água”. Fica o medo de voltar a sentir tudo aquilo outra vez (“medo que dá medo do medo que dá” ).


Embora, cada vez mais, tal sofrimento apareça nos consultórios, o PÂNICO não é de hoje. Os gregos, na antiguidade, já o conheciam como “terror pânico” – terror provocado pelo deus Pã. E, tal como aquela divindade tão amada pela civilização greco-romana, o PÂNICO já se mostrava assustador, horrendo, mas quase nunca maligno.


O PÂNICO não mata. Também não se enlouquece só por sofrê-lo. Porém, quando não tratado pode ter graves consequências: a DEPRESSÃO é uma das mais frequentes e também severas. O ALCOOLISMO é outra consequência bastante indesejável. Daí a importância de olhar a situação de frente: é preciso tratamento. É preciso buscar a ajuda necessária.


Quem hoje padece com o PÂNICO trilhou, no decorrer da própria história, um longo caminho de ansiedade (embora, frequentemente, também tenha um trajeto de vivacidade e vitalidade – o que faz tudo parecer ainda mais incompreensível). Sentir ansiedade faz parte da vida. A ansiedade nos protege e até nos prepara para lidar com as situações de risco, de perigo. Contudo, viver paralisado por esse sentimento, esperando, todo o tempo, que o medo assole já não é viver, já não é saudável. Sentir-se, constantemente, limitado pelo “medo do medo” já não é viver, já não é saudável. É sobreviver, é durar, sem aproveitar o que a vida tem de bom, de venturoso. É desperdiçar a vida e a saúde.


O PÂNICO exige cuidados profissionais: é necessário buscar ajuda psicoterápica e, com frequência, ajuda médica (nesses casos, o médico experiente irá avaliar se será necessária a prescrição de medicamentos). A medicação atuará no organismo, provocando a remissão dos sintomas. Mas, é através de uma psicoterapia bem conduzida que aquele que tanto padece com este transtorno, poderá retomar a alegria de viver a vida, sem os terríveis fantasmas da morte e da loucura à espreita…


O PÂNICO tem cura. A vida não (até porque a vida não é uma doença, mas mesmo assim continua mortal…). Quem hoje tem PÂNICO, em algum momento da própria história, teve que encarar a realidade da finitude. E é, justamente, essa realidade que hoje queremos – mas, não podemos, em hipótese alguma podemos evitar: a vida é mortal. Os antigos gostavam de dizer: “Vamos cuidar da vida que a morte é certa” . Ou costumavam falar assim: “Para morrer basta estar vivo”. Hoje estamos apressados demais, distraídos demais, ocupados demais para nos voltarmos à realidade de nossa finitude. Hoje estamos esquecidos que somos os únicos viventes neste planeta que temos consciência de que vamos morrer. Tal consciência leva à angústia, leva à certeza de que, em algum momento já não seremos…


O homem contemporâneo fez da Ciência sua nova religião: ergueu “altares” ao poder da técnica e da tecnologia. E esqueceu que ciência nenhuma nos salva da morte. Porém, a Ciência pode sim, pode e deve nos ajudar a viver melhor a vida. A vivê-la de uma maneira mais plena, com mais saúde e gosto de viver.


Há sofrimentos que não podemos evitar. Há outros que podemos, devemos e temos até o compromisso ético conosco de fazê-lo . Um bom trabalho psicoterápico ajuda a fazer tal distinção: se não podemos evitar a morte, podemos e devemos evitar morrermos em vida. Devemos oferecer resistência ao sofrimento que o PÂNICO traz. Devemos dizer “não!” ao terrível sofrimento vivido no PÂNICO. Dizer “não!” a estarmos subjugados a tal penúria… Devemos dizer “sim!” à saúde e à vida. Afinal, “A vida é curta demais para ser pequena”…

Saudações!


ROSANA MIRANDA


Psicóloga/Psicoterapeuta – CRP 02/0754


Membro da ABMP – Associação Brasileira de Medicina Psicossomática


Tel: (81) 3424-3818



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