Ugo Falangola foi pioneiro do cinema em Pernambuco. Trouxe da Europa as primeiras câmeras cinematográficas.
 Veio para o Brasil, não como imigrante, mas como Jornalista, contratado por uma firma de São Paulo.
 Juntamente com um sócio, J. Cambieri possuiam a Pernambuco Film, cujos filmes eram apresentados pela filha
 dele de 6 aninhos de idade: Adriana Falangola.
 Ugo era pai do meu Papai, Murillo Falangola, e, portanto, meu Vovô.
 Adriana, tia Didi, irmã de Papai, está hoje com 96 anos e 9 meses. E nós a chamamos de “A Menina do Cinema Mudo”.
 Toda segunda-feira, janto com ela , no “Sobrado da Torre”.
Aí está a foto de nós duas!
(Liliana Falângola)
E segue abaixo um texto de Leonardo Dantas Filho sobre Adriana Falângola.

A DAMA DO SOBRADO DA PRAÇA (por Leonardo Dantas Filho)

 

                                Quando menino, no bairro da Torre, apesar da pobreza e da singeleza do ambiente, eu me habituei a conviver com gente mais velha, da
                                        idade dos meus pais, e com ela aprender lições de vida que as guardo até os dias de hoje.

Filho único, mimado pelos meus pais e vizinhos que me rodeavam, tinha na Rua Marquês de Maricá, na cerâmica e na Praça da Torre, o meu universo de sonhos, tal qual o poeta Gonçalves Dias nos seus oito anos…

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
– Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é – lago sereno,
O céu – um manto azulado,
O mundo – um sonho dourado,
A vida – um hino d’amor!

Nos meus primeiros anos de vida, foi iniciada a construção da primeira casa em dois pavimentos da Praça que logo despertou a minha curiosidade.

Para lá se mudou a família do médico Milton Benjamin, com os seus filhos Milton Júnior, Maria Cristina, Hugo e Ricardo, que logo se tornaram meus amigos e, por estudarem na mesma Escola Experimental Governador Barbosa Lima (Parque Amorim), logo vieram a ser companheiros de bancas escolares.

Um novo mundo abrira-se para mim…

Graças ao convívio com esta nova família, que passou a ocupar o “Sobrado da Praça”, passei a gozar das benesses das caronas para a escola e, nos dias de domingo, dos banhos de mar em Boa Viagem e, vez por outra, o suporte do competente pediatra que era o Dr. Milton.

Mas em tudo pairava um anjo tutelar, a minha “Fada Madrinha”, que atendia pelo apelido de Dona Didi (Adriana Falangola), uma espécie de tia (dada a grande amizade cultivada entre ela e minha mãe) com quem eu passei a conviver desde os meus tempos de muito criança.

Tinha sempre uma palavra de carinho, uma demonstração de ternura, uma preocupação para comigo… um menino franzino que chegava sempre antes do café da manhã em busca da carona amiga para a escola do Parque Amorim.

Foi ela que me pôs o apelido que me marcou para o resto da vida… Foi ela quem, pela primeira vez, passou a me tratar do Léo…

E, por Léo, fiquei sendo conhecido não só entre os meninos do Alto da Torre, mas por todos que de mim se acercaram ao longo da minha vida.

A família do Sobrado da Praça foi crescendo… Vieram Tereza, Ana Lúcia e Adriana…

No meu silêncio acompanhei o passar do tempo, ao contrário da Carolina de Chico Buarque, e o Sobrado foi se enchendo de gente, em torno daquela Dama que logo se tornou referência na vida do bairro.

Na parte térrea do sobrado morava um velhinho, Seu Ugo, pai de Dona Adriana. Só muito tempo depois eu vim tomar conhecimento que se tratava de Ugo Falangola, um italiano nascido em Roma, em 31 de março de 1879, e falecido no Recife em 30 de maio de 1964. Um pioneiro do cinema com a empresa Pernambuco Films, responsável pela produção do documentário Veneza Americana (1925), que trazia a menina Didi na abertura e no final do filme.

Com os filhos, amigos dos filhos, genros, noras, netos e bisnetos, o Sobrado da Praça foi se enchendo de gente… A vida ali, no seu dia-a-dia, é uma verdadeira festa em torno desta minha Tia Didi, hoje na plenitude dos seus 96 anos, que, com os seus olhos claros, voz mansa e semblante angelical, parece abençoar a todos nós e fazer das nossas vidas um eterno meditar nos versos daquele poema que nos embalou por todos esses anos.

 

Adriana Falângola, início da década de 40 (vestido escuro), com uma amiga (Ponte da Boa Vista-Recife)
Adriana Falângola

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