A Sherlock

WALTER PERDIGUEIRO

 

 

 

Com dezessete anos eu havia lido quase todos os romances policiais de Agatha Christie e Sherlock Holmes. As pessoas com as quais me relacionava, todas, faziam parte da “confraria do crime”.

Nas reuniões, discutíamos os intrincados casos dos livros.

Aos dezoito anos, entrei na faculdade de Direito. Atuei durante dois anos como advogado, mas sentia que faltava alguma coisa à minha realização pessoal.

Depois de algum tempo, encontrei o que procurava: entrei para a carreira policial em nível federal.

Logo, demonstrei minha curiosidade pelos casos ditos insolúveis, mas não me permitiram que atuasse neles. Seria desperdício de tempo, disse-me o superintendente.

Alegando necessidade de atualizar o serviço comecei a frequentar a sede da unidade nos finais de semana, passando a estudar os inquéritos que me eram negados.

Rapidamente, encontrei uma pista em um dos mais rumorosos casos criminais da época. Apresentei a descoberta à minha chefia e recebi autorização para reabrir o inquérito policial. Em poucos meses, cheguei ao culpado.

Depois de haver deslindado dezenas de casos considerados insolúveis, recebi a mais alta comenda que poderia almejar um policial: “A coruja de ouro”. Junto, veio a promoção para o cargo máximo da carreira: “Agente Especial”, até que, com o passar do tempo,  tornei-me conhecido como “Walter Perdigueiro”.

Tudo seguia bem até sofrer um tiro na mão direita. Com a imobilidade do dedo indicador, utilizado para acionar a arma, fui obrigado a me aposentar. Fiquei sem saber que rumo daria à minha vida.

Tentando me distrair frequentei um clube tiro onde adquiri razoável habilidade para manusear a arma com a mão esquerda.

Participei de competições, fui convidado para atuar como instrutor, mas não aceitei. A depressão me ameaçou. Meu cérebro se negava a guardar os arquivos policiais.

Deixei a Capital e fui morar numa pequena casa que adquirira no interior do estado. Voltei a comprar livros policiais.

No início, lia-os normalmente. Com o tempo, me aborreci e passei a fazer ao contrário: lia o final para depois analisar a lógica que conduzira à solução dos crimes.

Minhas saídas de casa limitavam-se ao indispensável. Ia à feira, aos sábados, e passeava entre as barracas ouvindo as conversas. Era um universo que eu não conhecia. Os valores daquelas pessoas diferiam dos meus. As discussões com promessas de vingança e as soluções das diferenças através do desforço físico, eram normais.

Certa feita, percebi um casal discutindo. Passei por perto e, apurando o ouvido, captei um pedaço de frase dita pelo homem em tom ríspido: “…é, assim não tem jeito, o jeito é matar ele, ou eu faço isso ou quem  morre sou eu …”

Não foi possível acompanhar a conversa. Apenas, pude observar que a mulher chorava.

O faro de Walter Perdigueiro fora acionado. Fiquei indócil, não somente pela oportunidade de voltar à prática da minha profissão, mas, sobretudo, porque ali estava um crime à beira de ser praticado. Não poderia denunciar às autoridades locais dada à ausência de provas.

Enquanto pensava, notei que os dois se afastavam e resolvi segui-los. Depois de virar a última esquina vi quando entraram numa casa isolada das demais, entre muitas árvores.

Minha experiência dizia que nada iria acontecer nas próximas horas. Entre a decisão de praticar um crime e a sua concretização sempre decorre algum tempo. Decidi retornar à noite.

Ao voltar percebi que o pequeno quintal da casa era protegido por uma cerca de arame, o que facilitou minhas observações. Mas um obstáculo simples estava diante de mim: num canto do terreno existia um galinheiro. Um movimento qualquer poderia assustar as galinhas.

Fixei meu ponto de observação na lateral da casa. Dali, divisava o portão de entrada e o terraço. A conversa entre o casal restringia-se ao mínimo enquanto a mulher preparava o jantar. O cheiro de fritura me dizia aquilo.

Ouvindo o arrastar de cadeiras e o barulho dos talheres entendi que  começara a refeição. No princípio, frases simples e curtas. Após um momento de silêncio a mulher, num tom de voz áspero, iniciou o diálogo:

– Fernando, achou alguma coisa?

– Emprego, não, achei uma pintura numa casa que tá em reforma.

– Se você achou um trabalho, então o problema tá resolvido!

– Mas o serviço é só no final do mês.

– É, desse jeito não resolve o problema. Quando a gente tava voltando da feira, eu vi ele olhando pra gente.

– Não tem jeito, não, até domingo eu resolvo isso de uma vez. Se é pra fazer, faço logo e me livro dele. Não vou morrer por causa de dívida, não.

Terminado o jantar eu ouvi que ela retirava os pratos da mesa e os levava para a cozinha. O marido ficara sentado numa cadeira do terraço. Alguns minutos se passaram até que, com as palavras entrecortadas pelo choro, ela disse:

– Fernando, eu vou me deitar, não quero mais ficar pensando nisso, não. Você, com seu gênio, não para em emprego! No frigorífico, arengou com o colega, e foi demitido. E lá, a gente ainda tinha a carne garantida. Depois, você resolveu ser pintor, mas foi mandado embora pelo mestre de obra porque queria brigar com ele! Agora, taí o resultado: olha a situação da gente. Boa-noite.

Aguardei por uma atitude qualquer do marido. Ele não se manifestou.

Retornando à minha casa fiquei pensando deitado na cama: “Um crime vai ser cometido e eu não tenho como provar”. Eu não aceitava ficar aguardando uma pessoa morrer para, então, prender o criminoso.

Por outro lado, lembrei-me de que não tinha competência legal para atuar no caso. A iniciativa deveria partir da autoridade policial local. Com a cabeça fervilhando, adormeci.

Pelas seis horas, já estava tomando banho.

Decidi falar com o delegado, mas, na delegacia, fui informado de que ele havia ido à capital e somente retornaria dali a dois dias. A propósito de uma mentira qualquer, perguntei se seria possível um contato telefônico. Mas fui informado de que a central de telefonia da cidade estava sem funcionar. As coisas conspiravam contra mim, ou melhor, contra a vítima em potencial.

No dia seguinte, decidi que faria uma campana na casa. Botei a pistola Magnum 357 no coldre de axila, vesti um casaco jeans por cima e, antes das sete horas da manhã, já estava lá.

Passando em frente, apenas vi a mulher. Observei através de vários ângulos, mas não vi seu marido.

Durante a tarde andei pela cidade, vez ou outra passando por perto da casa, mas não havia sinal de sua presença.

Ao entardecer, voltei ao ponto de observação.

Às dezenove e quinze o homem ultrapassou o portão da casa. Levava uma maleta na mão esquerda. Os passos apressados no sentido do terraço me disseram que a mulher estava indo ao seu encontro.

Chegando perto, ela, rapidamente, o puxou pelo braço entrando em casa, encostando a porta:

– Que foi isso no seu olho, a camisa está manchada de sangue! Que foi que aconteceu?

Sua voz estava embargada.

Entre os dois, iniciou-se um diálogo:

– O que aconteceu o quê, Renata, você quer que eu conte tudo como aconteceu?!

– Não, pelo amor de Deus, eu não quero saber, perguntei por perguntar. Não quero falar mais nisso, eu só concordei com isso porque tava vendo a hora de você morrer. Agora, o problema foi resolvido, mas, pelo amor de Deus, vê se consegue um emprego e não arranja mais confusão!

Aproximando-me um pouco da janela ouvi-a soluçando. Aguardei mais alguns instantes, depois, resolvi agir.

Com a pistola na mão entrei na casa apontando para o sofá, onde estava o homem:

– Você está preso por suspeita de assassinato, eu sou agente especial federal, bote as mãos na cabeça e não se mexa! Virando-me para sua esposa disse-lhe: – E a senhora, sente-se aí com as duas mãos em cima da mesa e fique quieta!

O choro dela tornou-se convulso.

O homem começou a gritar que era um engano, não tinha feito nada. Eu já estava acostumado àquela reação: “todo criminoso é inocente”, disse para mim mesmo.

Com a pistola abaixada, interroguei:

– Onde está o corpo?

– Que corpo, eu não matei ninguém, já disse ao senhor!

– Você matou, sim, eu ouvi quando você disse à sua mulher!

Pegando-me de surpresa, sem que eu pudesse evitar, de um pulo, ele levantou-se do sofá e veio para cima de mim.

– Eu disse à minha mulher, sim, eu matei, eu matei um bezerro, o bezerro que o pai dela deu a ela de presente de aniversário. Eu matei, vendi a carne, as tripas, o couro, até os chifres. Vendi tudo no mercado pra pagar o agiota, porque se não pagar ele até segunda-feira, ele me mata!

A mulher soluçava.

 

 

 

 

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