Observei aquele rosto enquanto caminhava. Sem querer encarar, mas ao mesmo tempo querendo sugar um pouco seus pensamentos. Sei, é coisa de doido, mas não sou lá a pessoa mais sã do mundo, muito pelo contrário. Tenho essa mania de querer saber o que se passa na cabeça das pessoas enquanto trabalham, enquanto falam (sim, porque nem sempre falam o que estão pensando, aliás, dizer o que realmente se pensa faz parte do rol de pessoas raras), enquanto tentam chamar a atenção (tipo este que procuro deixar longe do meu convívio), entre tantas outras situações.

Ele estava ali, limpando as folhas da praça. Pensei no calor daquela roupa e no boné enterrado na cabeça. Por baixo da aba percebi os cabelos brancos um tanto molhados de suor e uma ruga profunda na testa. Imaginei quanto tempo aquele senhor resistiria ao destino que o país traçava para ele. Imaginei sua família, a dificuldade de ir a um médico, de tratar das doenças que sem dúvida já haviam surgido nessa fase da vida. Imaginei o ser humano tão maltratado por outros, tão à deriva no mar da vida. E é a isso que me refiro quando digo que sofro por ver com o coração. É difícil ouvir de alguém o que já escutei um dia desses: pobre nasceu para ser pobre, cada um com sua função social e seu destino. Minha mente criativa imaginou que todos nascem nus. Nessa lógica deveríamos continuar andando sem roupas. Ou não? Se nasci com a etiqueta na testa escrito POBRE e em letras menores: nasci para sofrer e a isto estou determinado, que esforço caberia fazer para existir, comer, trabalhar, tentar estudar apesar de tudo?

Portanto para mim não há nada mais injusto do que não facilitar a vida de quem nasceu já em condições menos favorecidas e até desumanas. E há quem fale de meritocracia. Como assim? Como comparar uma pessoa que nasce com todas as condições de ser alguém (ser alguém hoje entende-se ter dinheiro) com outra que já nasce no meio da dificuldade, da violência, do desespero que é não ter nem o que comer em sua casa?

Alguém deve estar lendo isso e pensando: blá, blá, blá…conversa chata de esquerdista. Ser humano hoje é ser esquerdista, é ser petista, é ser malandro. Pensando assim prefiro pensar que esquerdista é que pensa com o lado esquerdo, ou seja, o do coração. E não tô nem aí se defendo a sociedade como um todo e não só a mim.

Por isso quando olho para alguém que sai de casa às vezes sem comer, tantas vezes até doente, mas por medo de faltar para não perder seu emprego, que deve ter filhos que precisam de ajuda, de escola, de um futuro que seja mais decente, eu fico pensando que fracassei. Fracassei junto com essa engrenagem suja, que esmaga a todos, principalmente aos que necessitam de um olhar diferenciado, aos que nasceram em piores condições. Fracassei por não ter voz e até mesmo por sobreviver sem poder salvar os que estão afundando ao meu redor. Tanto já escrevi sobre isso, como um desabafo, e tantas vezes escreverei quando me sentir sufocada.

Uma vez por mês eu converso com as mães que acompanham seus filhos no NACC (Núcleo de Apoio à Criança com Câncer), mães que deixam trabalho, casa, marido, para acompanharem seus filhos com câncer num hospital. Em uma das minhas falas eu pedi para recordarem um momento feliz da vida delas. Foi aí que uma mãe cortou meu coração. Simplesmente ela disse que nunca soube o que era ter um momento de felicidade e que sempre só houve sofrimento em sua vida. Isso acabou com meu dia. Mas continuei tentando encorajar de todas as formas porque pelo menos enquanto puder falar eu tentarei abreviar algumas dores, enquanto tiver braços eu abraçarei e enquanto tiver coração eu amarei a humanidade. Então não me peçam para ser totalmente feliz, feliz d’uma felicidade cega, assim, de quem não tá vendo nada. Não, não me peçam isso, por favor.

(Taciana Valença)

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